X CONGRESSO BRASILEIRO DE MASTOZOOLOGIA

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Dados do Trabalho


TÍTULO

DIAGNOSE DE UMA HIPEROSTOSE FEMORAL EM TAMANDUA TETRADACTYLA (XENARTHRA, PILOSA) COM EVIDENCIAS DE UM PROVAVEL TUMOR OSSEO

Resumo

Hiperostoses são crescimentos ósseos anormais que podem acometer o esqueleto axial e apendicular tendo diferentes origens, tais como doenças congênitas, nutricionais, inflamatórias, neoplásicas e intoxicações. Processos hiperostóticos em animais domésticos são frequentemente descritos na literatura, enquanto relatos em animais silvestres são escassos; principalmente em tamanduás. Neste estudo, nós analisamos um crescimento ósseo anormal no fêmur esquerdo de um espécime de Tamandua tetradactyla (MZUSP 19987) depositado na coleção do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. O terço proximal do fêmur de MZUSP 19987 apresenta um crescimento ósseo (hiperostose) irregular anteriormente, sendo a extremidade anterodistal desta estrutura espessa e expandida, ao passo que as regiões proximodistal e proximoproximal são assimetricamente estreitas. Esta hiperostose também possui um sulcamento irregular, ligeiramente profundo e com uma coloração escurecida em sua superfície medial. As regiões adjacentes a esta massa óssea apresentam uma conformação desordenada e com orientações distintas, com evidente remodelação óssea originada de processos de neoformação óssea e alguns poucos de reabsorção óssea. A lesão identificada está fortemente aderida ao osso cortical e periosteal, com sua superfície sendo irregular, mas não apresentando o aspecto de “cera derretida” comum a alguns tipos de hiperostose (e.g. hiperostose esquelética idiopática difusa [DISH]). Além disso, a estrutura observada em MZUSP 19987 não possui a superfície rugosa-craquelada e o fêmur associado não apresenta um aumento volumétrico das suas extremidades, como relatado em casos de osteopatia hipertrófica e osteopetrose. Hiperostoses oriundas de intoxicações alimentares, como por hipervitaminose A/D ou fluorose, são frequentemente reportadas para ossos cranianos e do esqueleto axial de mamíferos. Contudo, no esqueleto apendicular as diagnoses de hiperostoses sob as mesmas condições são frágeis, sendo associadas inconclusivamente com outras doenças (e.g. doença de Camurati-Engelmann em wombat [Vombatus ursinus; Slon et al., 2014]) ou referidas somente como exostoses (e.g. Hufschmid et al., 2015). A ausência de outras doenças nos demais ossos de MZUSP 19987 e a forma distinta da estrutura analisada, sem o aspecto cogumelar das exostoses, não contribui para a diagnose de alterações metabólicas alimentares como etiologia para o caso em questão. Hiperostose cortical infantil (Doença de Caffey) também foi descartada, uma vez que acomete jovens lactentes, e o espécime trata-se de um indivíduo em idade avançada. A hiperostose presente no fêmur de MZUSP 19987 apresenta uma superfície fortemente indiferenciada (ausência de similaridade da estrutura anormal com o tecido ósseo original), com uma protusão e remodelação óssea intensas nas regiões cortical e periosteal, indicando um evento metastático por contiguidade, característico de um provável tumor ósseo. Os aspectos exibidos por esse crescimento ósseo favorecem a sua inferência como um osteossarcoma femoral em MZUSP 19987, neoplasia frequentemente descrita para animais domésticos, mas pouco reportada em espécimes silvestres (e.g. ouriços [Atelerix albiventris; Reyes-Matute et al. 2017]); e desconhecida para T. tetradactyla. As informações aqui apresentadas contribuem para uma maior compreensão das variações osteopatológicas presentes em espécimes de mamíferos, da expressividade destas doenças na história biológica de grupos supraespecíficos, tal como favorecem diagnósticos prévios mais precisos em animais de cativeiro.

Palavras-chave

Anatomia Patológica; Neoplasia; Vermilingua; Xenarthra.

Financiamento

Parte deste estudo foi financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) através de uma bolsa de doutorado para o primeiro autor.

Área

Anatomia e Morfologia

Autores

Leonardo Cotts, Ricardo Moratelli