X CONGRESSO BRASILEIRO DE MASTOZOOLOGIA

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Dados do Trabalho


TÍTULO

FILOPATRIA E DISPERSAO FRUSTRADA DE PUMA CONCOLOR EM UMA PAISAGEM FRAGMENTADA NO SUDESTE BRASILEIRO

Resumo

Considerando que a perda e fragmentação do habitat por ações antrópicas são uma realidade do atual cenário mundial, a persistência das populações depende da capacidade dos indivíduos em manter a conexão entre fragmentos remanescentes por meio da dispersão e de sua persistência nos refúgios remanescentes por meio do comportamento de filopatria e permanência de migrantes. Contudo, essas modificações na paisagem podem alterar padrões comportamentais e a dinâmica das populações. No presente trabalho, utilizamos a análise de parentesco para inferir sobre o comportamento filopátrico e de dispersão em fêmeas e machos de Puma concolor, e sobre possíveis efeitos de uma paisagem antropizada nesses comportamentos. As análises genéticas foram realizadas a partir de amostras não invasivas (fezes), coletadas em unidades de conservação (três fragmentos isolados e quatro no contínuo da Serra do Mar) e amostras de tecido de animais atropelados. A confirmação molecular da espécie depositora das fezes foi realizada pela amplificação de genes mitocondriais (regiões ATP6 e Cytb) e sete locos de microssatélites espécie-específicos foram amplificados para gerar um painel de genótipos dos indivíduos. O parentesco entre machos e entre fêmeas foi calculado para os indivíduos dentro de cada área e para os atropelamentos com uso de estimadores de máxima verossimilhança (r). Foram analisados 76 indivíduos no total, sendo 30 fêmeas e 46 machos. Encontramos baixos valores médios de parentesco para ambos os sexos na área contínua (machos: r=0,024; SE=0,009; fêmeas: r=0,028; SE=0,019) e nos atropelamentos (machos: r=0,058; SE=0,005; fêmeas: r=0,043; SE=0,007) e altos valores na área fragmentada (machos: r=0,261; SE=0,059; fêmeas: r=0.175; SE=0,038). O baixo parentesco entre indivíduos atropelados era esperado, pois esses devem representar dispersores que foram impedidos de estabelecerem áreas de vida com sucesso. Na área contínua, devido a maior qualidade de habitat disponível, os indivíduos provavelmente têm maior oportunidade de dispersão e movimentação, reduzindo a chance de encontro de indivíduos aparentados. Já o alto relacionamento na área fragmentada indica que machos e fêmeas estão permanecendo em sua área natal. Isso seria esperado para as fêmeas devido seu maior comportamento filopátrico, mas não para os machos dado sua maior tendência dispersora. O alto valor de parentesco entre os machos e o seu maior número de atropelamentos sugerem que a dispersão está sendo limitada e frustrada, provavelmente devido a redução das áreas naturais, fragmentação e existência de rodovias que funcionam como barreiras. Nossos resultados representam a primeira evidência de dispersão frustrada em onças-pardas no Brasil e destacam o potencial das análises genéticas e da amostragem não invasiva no estudo da dinâmica de populações. Planos de manejo devem focar em medidas mitigadoras para o atropelamento da fauna e na conectividade entre remanescentes, afim de reduzir a mortalidade dos dispersores, manter o fluxo gênico, reduzir a endogamia a longo prazo e garantir populações viáveis. Autorização de acesso genético: A9F8717.

Palavras-chave

carnívoros; conservação; comportamento animal; felinos

Financiamento

CNPq; Fapesp; FPZSP

Área

Biologia da Conservação

Autores

Marina Elisa de Oliveira, Bruno Henrique Saranholi, Pedro Manoel Galetti Jr