X CONGRESSO BRASILEIRO DE MASTOZOOLOGIA

Página Inicial » Inscrições Científicas » Trabalhos

Dados do Trabalho


TÍTULO

Impacto do surto de febre amarela na ocorrência de primatas em paisagens fragmentadas do Espírito Santo

Resumo

Doenças infecciosas são motivos de preocupação para saúde pública mundial, com sua emergência desencadeada por atividades antrópicas, em muitos casos. Uma dessas doenças, que representa grande ameaça para a fauna, gerando o declínio de populações em vida livre, é a febre amarela (FA). Entre 2016 e 2017, a FA atingiu o Espírito Santo, levando a óbito milhares de primatas, especialmente de Alouatta guariba. Para estimar o impacto desse surto em primatas que habitam fragmentos com diferentes taxas de cobertura vegetal na região serrana do Espírito Santo, realizamos 81 entrevistas com moradores das áreas rurais e, ainda, buscas ativas em 36 pontos nos fragmentos. O objetivo foi avaliar a percepção dos moradores em relação à presença desses primatas, antes e após o surto e, a partir de modelos de ocupação para múltiplas estações, estimar as probabilidades de ocupação antes do surto e a probabilidade de extinção após o surto. Dados das entrevistas também foram incluídas nos modelos de ocupação. Selecionamos como  variáveis a (1) área do fragmento (em km2); (2) o isolamento funcional do fragmento (IF; em metros), calculado usando uma abordagem que mede o isolamento médio de um pixel aleatório em relação a um fragmento de mata; e (3) o índice de febre amarela (IFA), criado a partir de registros de mortes de primatas, coletados pelo Projeto Sentinelas da Mata/UFES, dentro de um buffer de 2000 m. Conforme as entrevistas, a redução de populações de primatas foi: Alouatta guariba 82,5%; Callithrix spp., 49,1%; Callicebus personatus 25,5%; Sapajus nigritus 23,7%; e Brachyteles hypoxanthus 19%. Os modelos de ocupação indicaram que quanto maior o IF dos pontos amostrais menor é a probabilidade de ocupação para todas as espécies, exceto para A. guariba, que não foi influenciada por nenhuma variável estudada. A probabilidade de extinção foi maior em fragmentos menores e mais isolados para S. nigritus, Callithrix spp. e C. personatus. Não obtivemos resultados contundentes para o IFA. Tanto o IF quanto a área do fragmento foram variáveis determinantes para as probabilidades de ocupação e extinção, sendo que na maioria dos modelos o IF foi o que mais influenciou. As implicações da paisagem altamente fragmentada e isolada podem ter diminuído a ocupação e deixado as populações em desequilíbrio antes mesmo do surto de FA, aumentando a probabilidade de extinção dos primatas. Fragmentos isolados permitem menor fluxo gênico entre as populações e, considerando que a redução da variabilidade genética dificulta a viabilidade e a sobrevivência da espécie em longo prazo, o IF pode ter as tornado mais suscetíveis a eventos estocásticos, como ocorreu neste surto, principalmente para A. guariba, espécie altamente sensível à virose. Assim, entender a resposta das espécies a fatores da paisagem e a eventos estocásticos é fundamental para prever futuras extinções ou distúrbios populacionais e, consequentemente, elaborar medidas de conservação coerentes com a realidade local. Este trabalho reforça a importância da manutenção de fragmentos florestais grandes e conectados que contribuam com a persistência e viabilidade de primatas.

Palavras-chave

Alouatta guariba, arbovirose, extinção local, entrevistas, ocupação, redução populacional.

Financiamento

FAPES

Área

Biologia da Conservação

Autores

NILA RÁSSIA GONTIJO, DANIELLE OLIVEIRA MOREIRA, PALOMA MARQUES SANTOS, RODRIGO DE LIMA MASSARA, SERGIO LUCENA MENDES