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Dados do Trabalho


TÍTULO

ECOLOGIA TEMPORAL DE UMA GUILDA DE MESOCARNIVOROS EM UMA AREA DA CAATINGA BRASILEIRA LIVRE DE PREDADORES DE TOPO

Resumo

 

O padrão de atividade representa uma adaptação das espécies a fatores abióticos e bióticos do ambiente tais como a competição e o risco de predação ou de abate. Mamíferos carnívoros geralmente competem por alimento e habitat e assim necessitam desenvolver mecanismos de coexistência que podem envolver segregação espacial ou temporal. Com o declínio de predadores de topo, mesocarnívoros ficam liberados do controle top-down, podendo assim expandir seu nicho e mudar suas relações intraguilda. Neste estudo nós caracterizamos o padrão de atividade e investigamos a sobreposição temporal na atividade de uma guilda de mesocarnívoros em uma área do semiárido brasileiro onde predadores de topo estão localmente extintos. Nós coletamos os dados através de armadilhamento fotográfico em uma área prioritária para a conservação na região de Lajes, Rio Grande do Norte, de 2016 a 2019, ao longo de três campanhas que acumularam um esforço de 13.976 câmeras-dias. Entre as setes espécies de mesocarnívoros registradas (Conepatus amazonicus [288], Cerdocyon thous [1133], Procyon cancrivorus [36], Leopardus pardalis [143], Leopardus tigrinus [524], Herpailurus yagouaroundi [84], Galictis cuja [5]), seis apresentaram dados suficientes para a realização de análises através de estatística circular e estimativa do coeficiente de sobreposição temporal baseado nos horários dos registros das espécies. Em relação ao padrão de atividade, a maioria das espécies é noturna (K. amazonicus e P. cancrivorus) ou principalmente noturna (C. thous, L. pardalis e L. tigrinus), enquanto H. yagouaroundi é a única espécie diurna. De forma geral, os mesocarnívoros noturnos ou principalmente noturnos sobrepõem grande parte da sua atividade diária, com o coeficiente de sobreposição variando de 0.70 entre C. amazonicus e C. thous até 0.92 entre C. thous e L. tigrinus, contudo os picos de atividade das espécies são significativamente diferentes, com exceção dos pares C. thous – L. tigrinus e P. cancrivorus com quase todas as demais espécies; a exceção é H. yagouaroundi, que possui baixa sobreposição de atividade diária com todas as outras espécies, variando de 0.14 com C. amazonicus até 0.48 com L. tigrinus. De forma geral, os padrões de atividade encontrados coincidem com aqueles descritos na literatura, embora para P. cancrivorus este seja o primeiro trabalho sobre a sua atividade na região. Em relação a sobreposição na atividade, os resultados são semelhantes aos encontrados em áreas da região onde predadores de topo ainda convivem com os mesocarnívoros, sugerindo que outros fatores podem ser mais importantes. No entanto, existem algumas diferenças como, por exemplo, a elevada sobreposição entre C. thous e L. tigrinus e parcial segregação de ambas em relação à L. pardalis, que pode atuar como um predador de topo emergente, sugere uma adaptação que pode diminuir a competição e o risco de abates. Este trabalho caracteriza pela primeira vez a ecologia temporal de uma guilda de mesocarnívoros livres do controle de predadores de topo na Caatinga brasileira, podendo ajudar a entender como mesocarnívoros interagem em comunidades biologicamente empobrecidas pela ação antrópica.

Palavras-chave

carnívoros; competição; floresta tropical seca; interação intraguilda; nicho temporal.

Financiamento

Restaurante Camarões Potiguar; PH Marinho é bolsista de doutorado da CAPES; CR FONSECA e EM VENTICINQUE são bolsistas de produtividade do CNPq.

Área

Ecologia

Autores

Paulo Henrique Marinho, Raul Santos, Carlos Roberto Fonseca, Eduardo Martins Venticinque